Casas desabitadas na Itália — A Itália convive com um contraste curioso: enquanto metrópoles como Roma, Milão e Florença sofrem com pressões imobiliárias e alta demanda por moradia, vastas áreas do país acumulam casas desabitadas. O leitor brasileiro interessado na Itália — seja por cultura, investimento ou migração — muitas vezes desconhece essa face pouco visível do território italiano.
Segundo dados do Censo Permanente de 2021, o ISTAT revelou que das 35.271.829 habitações existentes, 9.581.772 estavam sem ocupante fixo — ou seja, cerca de 27,2% do total nacional. Esse índice traz à tona discussões sobre abandono, desequilíbrios regionais e os desafios de revitalização do patrimônio imobiliário.

Conheça as causas históricas, análise regional, impactos sociais e possíveis caminhos para reverter esse quadro.
Contexto histórico e principais causas das casas desabitadas
Migração interna e despovoamento
Desde meados do século XX, a migração interna tem drenado população do interior para grandes centros urbanos ou para o exterior. Municípios rurais, montanhosos ou ilhados perderam habitantes, deixando casas esvaziadas e comunidades fragilizadas.
Além disso, muitos imóveis permanecem em posse de famílias que emigraram ou faleceram, sem herdeiros interessados, ou sem recursos para mantê-los. A burocracia na sucessão, os custos de manutenção e o receio de ocupação ilegal (squatters) desencorajam a intervenção ativa.
Há também fatores técnicos: imóveis antigos com isolamento deficiente, sem conformidade energética ou estrutura deteriorada exigem reformas onerosas — muitas vezes inviáveis, sobretudo em regiões com baixa valorização.
Dados estatísticos regionais e nacionais
Visão macro: 27,2% de habitações não ocupadas
Conforme publicado pelo ISTAT, as habitações não ocupadas (incluindo aquelas vazias ou usadas por não residentes) somavam 9.581.772 unidades no censo de 2021, equivalendo a 27,2% do total de habitações italianas.
As habitações ocupadas por residentes eram 25.690.057, ou 72,8% do total.
Disparidades regionais
A distribuição dessa ausência de ocupação varia bastante por zona geográfica:
- Nas ilhas, 34,9% das habitações não estão ocupadas permanentemente.
- No Sul da Itália, o índice chega a 32%.
- No Norte-Leste, é de 23,1%.
- No Norte-Oeste, 26,0% das habitações não estão ocupadas.
Essas diferenças evidenciam como o fenômeno está muito mais presente nas regiões insulares e meridionais, onde o declínio demográfico é mais acentuado.
Perfil das construções
Uma parte significativa dos imóveis não ocupados pertence ao período de construção entre 1961 e 2000 — faixa representando cerca de 56,3% do total de habitações italianas.
Entre as habitações não ocupadas, a proporção de imóveis desse período também é substancial. Em resumo, grande parte do parque imobiliário que ficou vazio é relativamente “moderno” em termos construtivos, não apenas milenar.

Obstáculos à recuperação e uso efetivo dos imóveis desocupados
Regulação, tributos e risco de ocupação
Um dos maiores entraves é a complexidade normativa e tributária: reforma de imóveis antigos pode implicar altos custos e renúncias fiscais. Alguns proprietários preferem deixar imóveis vazios a correr o risco de ocupações ilegais, que demandam processos judiciais longos e custosos.
Além disso, muitos imóveis ficam sem uso por falta de planos ou incentivos claros para sua recuperação.
Baixa rentabilidade local
Regiões interiores ou rurais frequentemente enfrentam escassez de empregos, infraestrutura insuficiente e população envelhecida. Nesses contextos, restaurar uma casa pode gerar pouco retorno econômico ou social, desencorajando investimentos.
Estado de degradação
Imóveis abandonados tendem a sofrer desgaste acelerado — infiltrações, danos estruturais — que encarecem ainda mais a recuperação. Em muitos casos, o que era recuperável torna-se inviável.
Impactos e riscos para o território e para as pessoas
Desertificação territorial
Com menos pessoas vivendo em áreas rurais, serviços públicos (escolas, transporte, comércio) são reduzidos ou fechados. Isso retroalimenta o abandono: quem mora nas zonas afastadas tem menos atração para permanecer.
Degradação do patrimônio arquitetônico
Vilas históricas e pitorescas perdem valor cultural quando suas casas ficam deterioradas. O abandono pode converter acervo histórico em ruínas irreparáveis.
Pressão sobre os centros urbanos
Com poucas alternativas habitacionais nas zonas menos adensadas, cresce a demanda nas cidades maiores, pressionando preços, densidade urbana e mobilidade.
Oportunidades e riscos para brasileiros
Para brasileiros com “olho italiano”, o panorama de casas desabitadas na Itália pode sugerir oportunidades de compra a baixo custo ou projetos de recuperação — mas exige cuidado: custos de reforma, regulamentações locais e condição de infraestrutura são fatores decisivos.
Experiências de recuperação e soluções discutidas
“Case a 1 euro”
Diversos municípios italianos experimentaram a venda simbólica de imóveis abandonados (casas por 1 euro), condicionada à obrigação de reformá-los em prazos definidos. Essa prática é divulgada com apelo midiático, embora os desafios operacionais variem.
Incentivos fiscais e subsídios
Algumas regiões oferecem benefícios fiscais ou subsídios para obras de requalificação energética, ou restauração arquitetônica, visando tornar a recuperação mais viável.
Projetos de repovoamento criativo
Modelos de coabitação rural, turismo de longa duração e estímulo ao “smart working” em vilarejos são testados para dar novo uso às casas vazias.
Políticas nacionais e regionais
Há iniciativas propostas no parlamento italiano para agilizar processos de adjudicação, endurecer normas contra ocupações ilegais e fomentar o uso de imóveis vazios. Contudo, ainda falta coordenação entre os níveis municipal, regional e nacional.

Conclusão e perspectivas futuras
As casas desabitadas na Itália revelam um desequilíbrio estrutural: 1 em cada 4 imóveis do país está sem ocupação permanente — índice que se eleva nas ilhas e no Sul. A despesa de reforma, a complexidade normativa, o risco de ocupação e a baixa atratividade econômica são barreiras reais à reversão desse processo.
Para leitores brasileiros, esse panorama combina riscos e oportunidades: imóveis baratos em locais pouco valorizados podem representar projetos interessantes, mas exigem avaliação cuidadosa. É fundamental acompanhar iniciativas legislativas, programas de revitalização e casos de sucesso.
Fontes: Istituto Nazionale di Statistica, immobiliare.it, lacnews24.it
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